3 mitos sobre a criança com dificuldade alimentar

setembro 11, 2016

Semana após semana o cardápio de Mariana é este: macarrão, pedaços de queijo, nuggets de frango e pizza de queijo. O café da manhã é cereal com leite de arroz; nunca leite de vaca. Ela pode até comer macarrão cabelo de anjo com manteiga, mas nunca espaguete. Ela tem horror a vegetais e à maior parte das frutas. Os alimentos em seu prato nunca, nunca, devem encostar um no outro.

Crianças entre 3 e 5 anos podem ser bastante seletivas. Às vezes vivem de macarrão e biscoito por meses e rejeitam qualquer coisa com proteínas, fibras e vitaminas ou minerais. Mas Mariana não tem mais 3 anos, ela já tem 11 anos e ainda se recusa experimentar qualquer alimento novo.

“Quando ela era pequena, eu pensei que era só esperar que isso passaria… mas o cardápio dela não melhorou nem um pouco”, diz a sua mãe. “Nosso pediatra não parece se preocupar, porque ela é uma criança aparentemente saudável. Mas para mim é extremamente frustrante, eu amo comer e sei que uma dieta nutritiva é importante”.

Quando cada colherada parece uma batalha, há um estresse geral na família. E não importa se a criança tem 12 meses ou 12 anos. Se você não está brigando para o seu filho comer, você está se sentindo culpado por ceder às suas demandas e envergonhado quando você tem que dizer aos seus parentes que seu filho não irá comer o que eles serviram para o jantar.

É difícil saber se você deve apenas torcer para que os hábitos alimentares do seu filho melhorem ou se você deve ser mais proativo sobre essa situação. Especialistas advertem: não desista! Quanto mais tempo uma criança é seletiva para comer, maior é a chance de que ela continue assim. Entretanto, papais e mamães não devem perder as esperanças.

As melhores estratégias para inspirar no seu filho a ter melhores hábitos alimentares podem ser as mais sutis. Embora não existam atalhos, o primeiro passo é repensar o que o senso comum diz sobre as crianças seletivas para comer:
1. “Ela vai crescer e isso vai passar”

O medo de experimentar novos alimentos de Mariana é conhecido como neofobia e é comum em crianças entre 2 e 5 anos. Muitas das crianças perdem esse medo, se expostas a uma boa variedade de alimentos, mas cerca de 25% das crianças não. O termo “criança seletiva” é usado para descrever crianças que comem um número bem limitado de alimentos e que têm uma reação negativa muito forte em relação aos alimentos que não gostam ou não querem provar. Considera-se que essas crianças têm algum tipo de “dificuldade alimentar”, ao invés de um “distúrbio alimentar”; diferentemente de crianças com bulimia ou anorexia, crianças seletivas não estão preocupados com seu peso. Entretanto, se não forem corretamente encorajadas a experimentarem novos alimentos, essas crianças podem se manter seletivas pelo resto da vida. Não há dados sobre a quantidade de adultos seletivos que exista, mas algumas universidades americanas que estudam o assunto têm mais de 29.000 pessoas registradas para um estudo, por exemplo.

A maior parte das crianças seletivas parece ser saudável, mas estes pequenos que rejeitam grupos alimentares inteiros não estão fazendo nenhum favor à sua saúde. Rejeitar laticínios pode significar que não vão consumir cálcio suficiente para seus ossos. Deixar de lado frutas e verduras cheias de vitaminas e fibra pode levar a deficiências nutricionais e constipação. E sabe-se que uma dieta pobre em nutrientes e fibras a longo prazo está relacionada com o surgimento de muitos problemas de saúde, desde câncer a doenças cardiovasculares. Suplementos podem ajudar uma criança desnutrida, mas eles não substituem o valor dos alimentos.

E não é só com a nutrição que os pais dessas crianças devem se preocupar. Crianças com um cardápio muito restrito podem sentir ansiedade por terem que comer o lanche da escola ou participar de atividades sociais. Mariana, por exemplo, vai embora mais cedo quando encontra amigas, para não ter que comer com suas famílias e uma vez, num passeio, passou o dia todo sem comer.

2. “Ela não come porque é teimosa”

As pessoas tendem a pensar que a seletividade alimentar é uma forma das crianças exercerem controle, mas essas crianças não estão simplesmente tentando deixar seus pais malucos. Esse comportamento é só a ponta do iceberg. Hábitos alimentares se desenvolvem a partir de uma mistura complexa de características inatas, fatores ambientais, experiências individuais e comportamentos aprendidos. Mas a hereditariedade tem seu papel – um estudo britânico grande com gêmeos entre 8 e 11 anos encontrou que a tendência a continuar a evitar novos alimentos é determinada geneticamente em torno de 75% dos casos.

Entretanto, alguns irmãos são opostos, como Leo de 5 anos e seu irmão mais velho, Oliver, de 6 anos. “Leo começou a tentar pegar nossa comida quando tinha apenas 4 meses. Ele gosta de pesto, de guacamole e de salmão”, conta a mãe deles, Anna, que adora comer, assim como o pai das crianças, ela conta. “O Oliver não demonstrava interesse pelos alimentos quando bebê. Hoje ele come 30 ou 40 tipos de alimentos, mas se não for algum tipo de pão, ele não vai experimentar nas primeiras 25 vezes que for oferecido.”

Às vezes, um problema médico pode marcar as experiências alimentares de uma criança. Oliver tinha doença do refluxo gastroesofágico, que pode causar dores por um esôfago constantemente irritado. Os componentes sensoriais da alimentação também podem ser o calcanhar de Aquiles. Muitas crianças se sentem desconfortáveis com o sabor, cheiro ou textura de alguns alimentos. Alguns especialistas dizem que essas crianças podem ter mais papilas gustativas que a maioria, o que torna o sabor de alguns alimentos mais intenso, mas o problema ainda não é completamente compreendido. Um comportamento alimentar com alta seletividade pode ser um sinal de autismo, e uma criança com atrasos no desenvolvimento pode ter uma maior tendência a ter dificuldade alimentar de uma forma geral. Não são todas as crianças seletivas que têm um problema maior por trás, mas é importante investigar essa possibilidade, caso seu filho tenha necessidade de tratamento especializado.

3. “Ela vai comer quando tiver fome”

Existe uma idéia comum que pais de crianças seletivas para comer cedem com facilidade e a solução é deixar a criança ficar com fome suficiente para comer. De acordo com esse pensamento, a criança vai eventualmente acabar comendo o que for servido, contanto que não tenha outra opção na mesa. Quando na verdade, estar com fome não vai fazer a criança vencer seu medo de comer o que não gosta, e essa ansiedade pode, inclusive, tirar seu apetite.

Pais e mães frequentemente imploram ou tentam negociar na mesa, mas forçar seu filho a dar algumas mordidas vai, na melhor das hipóteses, ser um ganho passageiro. Esse processo pode gerar uma relação conflituosa entre pais e filhos e tornar o momento da refeição em uma experiência negativa para a criança.

Isso também não significa que você deva ceder a todas as demandas do seu filho. Se você apenas servir seus alimentos preferidos, ele não vai ter porque experimentar nada diferente. Os pais dessas crianças geralmente são durões num minuto e condescendentes no outro: eles insistem para que a criança “limpe o prato” no almoço, mas no jantar fazem algo diferente para ela, caso a criança não goste do que o resto da família está comendo.

Ao invés disso, considere estas dicas que certamente vão ajudar seu filho a expandir seu cardápio (mesmo que o processo seja lento!):
Planeje você, o cardápio

Ao invés de perguntar o que a criança quer, sirva refeições diferentes e sempre inclua alimentos que você sabe que a criança vai comer. Combinar alimentos que a criança já gosta com novos alimentos pode ajudá-la a se sentir mais segura em experimentar. Coloque no prato dela uma porção de tudo que a família vai comer. Tente comer em família, para que você possa dar o exemplo ao saborear diferentes alimentos.

Torne o alimento menos amedrontador

A melhor abordagem é semelhante à desensibilização que psicólogos fazem com alguém que tem fobia de aranhas, por exemplo. Primeiro, seu filho pode só olhar o alimento. Com o tempo, você pode encorajá-lo a cheirá-lo, então, tocá-lo e até lambê-lo. Também é importante dar à criança a opção de cospir o alimento, se ela ainda não quer engoli-lo. Tirar a pressão dessa experiência faz uma enorme diferença. E quando ela finalmente der uma pequena mordida, não ofereça mais. Louve sua atitude e sinta-se grato por essa pequena vitória! Com sorte, ela vai comer mais da próxima vez.

Sirva o alimento, mas não force a criança a comer

Esse deve ser o seu mantra do momento da refeição! Seu papel é oferecer uma variedade de alimentos e o papel do seu filho é fazer suas próprias escolhas. Tente ter uma atitude mais neutra quando apresentar o alimento; não fique dizendo que a criança vai adorar o novo alimento, nem que talvez não goste. Também esteja preparado para tentar e tentar de novo. É comum os pais oferecerem um alimento algumas vezes e se a criança não gostar eles pararem de servi-lo. Mas frequentemente leva de 10 a 15 vezes para as crianças aceitarem um novo alimento.

Outras maneiras de ajudar uma criança seletiva para comer
Foque no progresso

Seu objetivo não deve ser de imediatamente levar seu filho da “tranqueira” à comida saudável, mas ajudá-lo a se sentir confortável com uma maior variedade de alimentos. Você pode lentamente introduzir novos alimentos que são semelhantes em sabor ou textura aos alimentos que seu filho já gosta. Então se ele gosta de requeijão, tente servir na bolacha, na torrada, no pão e em fatias finas de maçã, por exemplo. Faça isso de uma maneira tranquila e ofereça reforço positivo. Em alguns casos o progresso vem com algumas semanas!

Não substitua, adicione

Se a criança prefere macarrão com manteiga, faça como ela quer, mas também coloque um pouco de molho vermelho no macarrão do canto no prato. Ela só aceita uva vermelha? Coloque uma verde junto. Sempre coloque uma outra opção, mesmo que signifique jogar fora depois.

Explore, sem ter a necessidade de comer

Conte os tipos de maçãs na feira. Plante tomatinho num vaso e compare o aroma de ervas frescas. Planejem o menu e cozinhem juntos. Leiam sobre comidas de outras culturas. Feche seus olhos e deixe seu filho escolher alimentos para você comer e adivinhar o que é!

Mude a apresentação do alimento

Procure maneiras de variar no preparo dos alimentos favoritos do seu filho. Compre iogurte em potinho, de beber ou sirva congelado. Compre marcas diferentes de biscoito integral e macarrão de formatos variados. Ofereça frutas e vegetais crus num dia e assados no dia seguinte. Se seu filho é sensível ao cheiro dos alimentos, tente servi-los a temperatura ambiente.

Não deixe a criança ficar “beliscando”

Pais que se preocupam com a ingesta calórica dos seus filhos costumam deixá-los beliscar o dia todo. Ao invés disso, sirva os lanches e as refeições principais seguindo uma agenda, para que a criança saiba o que esperar, e sirva água se ela reclamar de fome entre as refeições. Não ofereça nada para beliscar uma hora antes das refeições para preservar o apetite da criança.

Busque ajuda de um profissional

A seletividade alimentar é um problema emocional que pode afetar a auto-estima do seu filho. Se os hábitos alimentares da criança estiverem causando um estresse significativo para ela ou para você, isso é razão suficiente para avaliar o que está e não está funcionando. Especialmente se o problema parece estar piorando ou se a está impedindo de aproveitar a vida, é importante buscar ajuda. Peça ao seu pediatra indicações de profissionais especializados em tratar dificuldades alimentares. Provavelmente a melhor maneira é procurar uma clínica multidisciplinar ou busque online por “dificuldade alimentar infantil”.

Pense a longo prazo

Ajude seu filho a se sintonizar com a sua fome e a olhar a comida como algo que o ajuda a fazer as coisas que gosta. “Nós falamos para o Oliver como a cenoura o ajuda a enxergar bem a bola no jogo de futebol”, conta a mãe dele.

É normal se sentir frustrado, mas faça o seu melhor para ser paciente e não forçar nada. Procurar entender os problemas do seu filho e tentar resolvê-los da maneira certa resultará em refeições menos tensas para toda a família.

Texto adaptado, publicado originalmente aqui.

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Dia do Nutricionista | 31 agosto 2016Qual o impacto dos pais na alimentação dos filhos?

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