A preocupação em ser uma mãe perfeita torna mais difícil ser uma boa mãe

maio 14, 2016

No dia-a-dia com mães há tantos anos, fui aprendendo que no desejo de querer ser uma mãe perfeita, muitas sofrem e se sentem extremamente culpadas…

Quando pensamos em mães com filhos com desafios na sua alimentação e na sua comunicação, há ainda um forte sentimento de frustração e tristeza. Por que só o meu filho não come? Porque minha filha está demorando tanto para começar a falar? Por que está dando tudo “errado”? Idealizamos a maternidade, queremos filhos perfeitos e sonhamos com uma “família Doriana”, certo?

Nessa busca incessante pela perfeição, perdemos nosso foco, nos estressamos e o mais triste, nos distanciamos de nós mesmas e de nossos filhos.

No post de hoje a pesquisadora Sarah Schoppe-Sullivan aborda a maternidade com a propriedade de quem é mãe e estudou profundamente o assunto. Leia o post e compreenda porque a preocupação em ser uma mãe perfeita torna mais difícil ser uma boa mãe.

Ótima leitura!

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Fga. Dra. Patrícia Junqueira | CRFa. 5567

A preocupação em ser uma mãe perfeita torna mais difícil ser uma boa mãe

Mesmo munida com um Ph.D. em psicologia do desenvolvimento eu lembro dos assustadores primeiros momentos depois de trazer do hospital para casa minha filha recém-nascida. Eu não sabia bem o que fazer e não estava confiante de que eu tinha capacidade para ser a mãe que ela precisava que eu fosse. Todas as pequenas decisões sobre amamentá-la e cuidar desse ser indefeso pareciam enormes e carregadas de ansiedade. E se eu não conseguir amamentar até 1 ano? Eu devo desligar a TV toda vez que ela estiver na sala para evitar exposição passiva à tela? Tudo bem se ela entrar no berçário em período integral com cinco meses?

As referências populares na imprensa sobre maternidade e as pesquisas sobre desenvolvimento infantil também não ajudavam muito. Mesmo que como cientista eu conseguisse compreender as pesquisas, ao serem traduzidas para o público elas deixavam de fora algumas nuances e facilmente permeavam meu estado mental vulnerável. Eu temia por exemplo, que se a minha filha fosse alimentada por fórmula, ela tivesse QI baixo. E agora que ela esta no ensino fundamental, eu já “escorreguei” várias vezes e a chamei de “inteligente” ao invés de – mais apropriadamente – louvar seus esforços, como muitos artigos aconselham.

Minhas experiências pessoais como mãe são, em parte, o porquê eu estudo as experiências de outros pais. No meu Projeto “New Parents” (“Novos pais”), um estudo longitudinal em andamento de quase 200 casais, em que ambos contribuem financeiramente na família e que tiveram seus primeiros filhos entre 2008-2009, eu tentei medir esse “perfeccionismo na parentalidade” – que é ter padrões tão altos que são impossíveis de serem atingidos pelos pais e mães.

A pressão para ser perfeita

Mães, mesmo aquelas de famílias onde o pai e a mãe são responsáveis pelo suporte financeiro, não só carregam a maior parte do peso das responsabilidades sobre a parentalidade, mas também experimentam a maior pressão por serem mães perfeitas.

Na segunda metade do século 20, ao mesmo tempo em que as mães entraram pra a força de trabalho em maior número, as normas em relação à maternidade evoluíram para um ideal de “maternidade intensiva”. Essa norma diz que a maternidade deve demandar gasto de tempo, ser emocionalmente desgastante e guiada por conselhos de um especialista. Essa pressão é particularmente intensa para mães da classe média, que podem praticar uma educação de filhos chamada de “cultivo orquestrado”, uma abordagem identificada por Annette Laureau no início do século 21. Esse estilo parental foca em deliberadamente prover a criança com experiências e atividades que vão ajudar no seu desenvolvimento intelectual e em suas habilidades sociais.

Pais e mães da classe média, especialmente os que estão no lado mais alto do espectro, têm recursos de capital humano, tempo e dinheiro para praticar o “cultivo orquestrado” e o fazem para garantir o sucesso futuro de seus filhos.

A busca por ser a mãe “perfeita” pode, na verdade, fazer mal à maternidade. Na minha pesquisa sobre novos pais, nós encontramos que as mães mostravam menos confiança em suas habilidades quando elas eram mais preocupadas com o que outras pessoas pensavam sobre seus estilos de maternidade.
Mídias sociais e seu impacto na busca pela perfeição

A popularidade das mídias sociais bem provavelmente exacerbou o fenômeno de ser uma mãe perfeita. Isso porque pais e mães podem ver o que outros estão fazendo – mesmo que em momentos de privacidade – e se compararem. Na verdade, pesquisas recentes têm ligado o grande uso do Facebook a sentimentos de depressão devido à maneira como indivíduos tendem a se comparar a outros. Na minha própria pesquisa, quando perguntamos aos “novos pais” sobre o uso do Facebook, mães que visitavam mais frequentemente o site e que usavam mais suas contas mostraram maiores níveis de estresse parental.

A ironia está em que, na busca pela perfeição na parentalidade, pais e mães têm menor probabilidade de serem efetivos nesta atividade.

Preocupar-se sobre o que outros pensam rouba a confiança das mães, fazendo com que elas encarem a maternidade como sendo menos agradável e mais estressante. Ao encarar desafios inevitáveis, mães com menor confiança e maior estresse parental desistem mais rapidamente.

Então o que é ser um bom pai ou uma boa mãe?

Pode haver discordância entre especialistas em desenvolvimento infantil sobre questões como o limite de exposição a telas ou rotinas de sono, mas há extrema concordância sobre os elementos chaves de uma “boa” parentalidade.

A boa parentalidade tem mais a ver com o “como” do que com o “o que”.

Bons pais e mães são aqueles sensíveis às necessidades de seus filhos, e estão tão “sintonizados” com eles que são capazes de ajustar seu modo de agir conforme seus filhos desenvolvem e desejam uma maior independência. As crianças são bem sucedidas quando seus pais são consistentes, amorosos, têm altas expectativas em relação ao comportamento de seus filhos, quando explicam as razões por trás das regras e negociam com eles quando for apropriado.

Um maior estresse sobre a parentalidade esgota os recursos psicológicos dos pais e mães, que, por sua vez, pode afetar a habilidade deles em se adaptarem às mudanças nas necessidades dos seus filhos e em regular suas próprias emoções ao educá-los.

Em outras palavras, quando você perde a confiança e se sente cronicamente estressado, é difícil ser sensível, amoroso e consistente. Você tem mais chances de gritar, quando você deveria explicar calmamente para seu filho para parar de bater seu aviaozinho na mesa pela milionésima vez. Você pode se sentir mentalmente “aérea” quando seu bebê olha pra você e balbucia ou quando sua pré-adolescente quer te contar tudo sobre o último seriado do Disney Channel. Você pode ceder ao seu filho em idade pré-escolar quando ele exige mais figurinhas do Pokemon.

Então, não se estresse com as pequenas coisas. Lembre-se que o contexto geral é o mais importante. Lembre-se, o que outras mães postam no Facebook pode não representar a realidade da experiência de maternidade delas, tanto quanto não representa a sua. Veja as últimas manchetes sensacionalistas sobre parentalidade com um olhar mais cético.

Hoje – e todos os dias – o melhor presente que você pode dar a você e ao seu filho é a permissão para ser imperfeito.

Texto originalmente publicado aqui.

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