Como aprendemos a gostar dos alimentos?

fevereiro 27, 2016

A escritora britânica Bee Wilson tem uma mensagem de esperança para os pais que lutam para conseguir que seus filhos comam vegetais: “Como pais, temos um poder muito maior do que nós pensamos ter para formar o paladar das crianças”.

Em seu novo livro First Bite: how we learn to eat (A primeira mordida: como aprendemos a comer – tradução literal), Wilson examina como a genética, cultura, memória e os primeiros padrões de alimentação contribuem para as nossas preferências alimentares. Ela diz que o paladar de uma criança pode ser formado antes mesmo do nascimento. E essa percepção pode ser útil para os pais que querem que seus filhos comam bem e de modo saudável.

“Uma das principais coisas que sabemos sobre o paladar é que ele é uma consequência da familiaridade, do modo e do que nossas mães comem, mesmo antes de nós nascermos. Isso afeta a maneira como vamos responder a esses sabores consumidos pela mãe durante a gestação, quando mais tarde formos encontrá-los, porque eles nos parecerão familiares”, diz Wilson.

Mãe de três filhos, Wilson observa que os bebês são mais abertos a experimentar novos sabores entre as idades de 4 e 7 meses. Mas, Wilson acrescenta que, mesmo se os pais não tiverem realizado a introdução alimentar durante a chamada “janela de sabor,” a esperança não está totalmente perdida.

“Não é que o período da chamada “janela de sabor”, vai fechar e nós nunca mais poderemos aprender a amar vegetais verdes e amargos. Os seres humanos podem aprender a amar novos sabores em qualquer idade”, diz Wilson. “Uma das coisas surpreendentes sobre a nossa relação com a comida é quão maleável ela é. É o que chamamos de plasticidade, embora nós, geralmente como adultos, não nos darmos uma oportunidade para mudar.”

Veja parte da entrevista que Bee Wilson concedeu à www.npf.org.br:

Simon (entrevistador): Então, em se tratando de gostar ou não de um alimento, quanto é da nossa natureza e quanto é aprendido?

Bee Wilson: Bem, acho que todos temos um “instinto” do que apreciamos mais, porque parece que temos intrinsicamente, como parte de nós mesmos aquilo que gostamos e o que não gostamos. Mas quando olhamos o que a ciência e as pesquisas referem, parece que em grande parte, nossas preferências são também um produto do ambiente/meio.

Na verdade eu acredito que, em parte, nós não acreditamos que nossas preferências venham apenas do modo como fomos educados, ou ao que fomos expostos quando crianças, simplesmente porque muito do que influenciou nossos gostos ocorreu nos primeiros anos de nossas vidas e está completamente esquecido nas nossas lembranças.

Nós não acreditamos que podemos mudar o modo que comemos porque sempre tivemos esses hábitos. Há estudos que mostram que o comportamento que alguém tem aos 2 anos em relação aos alimentos é o mesmo que terá aos 20 anos. Mas ainda assim, há evidência de que há um imenso potencial para mudança.

Simon (entrevistador): Não sobra muito tempo pra mudar, sobra?

Bee Wilson: Não, na verdade não sobra (risos). E é por isso que, o que os pais fazem, é muito poderoso, muito mais acredito, do que eles possam imaginar.

Simon (entrevistador): Você diz que apesar de todas as tentativas de conscientização, de toda publicidade, o consumo de vegetais tem caído?

Bee Wilson: Sim. Quanto mais as pessoas são aconselhadas a comer vegetais, menos elas parecem desejar comê-los. E é uma resposta um tanto natural. Então… eu disse que a principal maneira pela qual aprendemos a gostar dos alimentos é ao sermos expostos a eles, mas há uma segunda condição. Nós precisamos ser expostos a eles sem que haja uma sensação de coerção. E eu acredito que, assim que ouvimos alguém, seja pai, mãe, ou o governo dizendo, “você deveria comer isso”, essa mensagem vem com uma atmosfera desagradável de obrigação. Entretando, você sabe, nós desejamos comer o que nós queremos comer. E eu acredito que sucessivos governos, tanto nos Estados Unidos, quanto na Inglaterra, e pelo mundo afora, ainda não aprenderam isso – que simplesmente espalhar conselhos não é a maneira de fazer as pessoas mudarem suas dietas. Nós somos muito guiados pelo prazer. Nós, no final das contas, comemos as coisas que amamos.

Simon (entrevistador): Fale-nos sobre – espero que pronuncie corretamente – o Movimento Sapere

Bee Wilson: Sim. Este movimento começou, originalmente, na França, baseado na idéia de “quebrar” as características dos alimentos nas “partes” em que são formados, fazendo com que as crianças identificassem e conversassem sobre o sabor dos alimentos (doces, salgados, amargos, etc). Desse modo elas seriam educadas em termos do paladar.

Na Finlândia, eles olharam ao redor e viram que comparados aos vizinhos da Suíça e Noruega, eles tinham os piores níveis de obesidade. Então, na forma de um grande experimento, eles fizeram com que em todas as pré-escolas uma parte fundamental da educação das crianças fosse explorar os alimentos através dos sentidos E o que é tão poderoso em relação ao Movimento Sapere é que é o oposto do governo ficar dizendo “coma suas 5 porções de vegetais por dia”. Nesse caso, há liberdade envolvida. Isso continua acontecendo e parece que os resultados são promissores até agora.

As crianças iam pra casa dizendo aos seus pais – Eu comi frutinhas diferentes – e pensando e refletindo… Será que gostei mais das azedas? Ou gostei mais das doces? Gostei dessa ou daquela? Mas não havia uma sensação de imposição. Era só uma tentativa de expô-las aos alimentos e a todas as suas possibilidades sensoriais.

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Fonoaudióloga Dra. Patrícia Junqueira | CRFa. 5567

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