Socorro! Meu bebê não quer saber de comer!

fevereiro 13, 2016

Você alguma vez já se viu impedido de se alimentar sozinho?

Imagine só por um minuto que está com as duas mãos imobilizadas e que precisa ser alimentado por alguém. Como explicar a quantidade, a temperatura, e a velocidade de cada colherada que é colocada em sua boca? Como dizer que não gosta tanto assim daquela gelatina escorregadia? Ou ainda como explicar para o outro que você precisa de um tempo maior para mastigar antes de te introduzirem outra colherada de sopa na boca?

Imagine ainda que você tem que explicar tudo isso sem usar palavras, sem falar… Como você faria para se fazer entender? Hum.. isso pode ser difícil, não? E por algum momento você pode engasgar, tossir, se “cansar”, achar melhor dar um tempo e esperar a próxima refeição. Aquilo tudo te deixou “aborrecido” demais… quem sabe da próxima vez?

Será que alguns bebês podem sentir isso ao serem alimentados? Quais podem ser os reais motivos para que eles relutem e acabem muitas vezes “desistindo” de comer?

Dificuldades Alimentares Infantis são muito comuns em bebês e crianças. Uma abordagem ampliada e preferencialmente multidisciplinar contribui para o diagnóstico e tratamento desses pequenos. Apesar de haver poucas pesquisas que abordem as principais causas da dificuldade alimentar infantil, alguns estudos apontam que os problemas orais são extremamente frequentes, ficando atrás apenas dos problemas médicos (dificuldades gastrointestinais e refluxo gastroesofágico, prematuridade extrema, etc). E a associação entre problemas médicos e orais atinge até 50% das crianças.

Sendo a segunda maior causa de dificuldades alimentares infantis na primeira infância, quais seriam esses problemas? De que modo podem interferir na aceitação dos alimentos?

Toda a estrutura orofacial é primordial para possibilitar a amamentação e consequente introdução alimentar complementar. Alterações anatômicas como: fissuras-lábio palatinas, frênulo de língua curto, etc podem comprometer o desenvolvimento alimentar.
A realização das funções desempenhadas por essas estruturas também é importantíssima. A coordenação entre sucção/deglutição/respiração utilizada precocemente para amamentação é um movimento rítmico e base para o aprendizado alimentar. É esse ritmo que ajuda o leite ir da frente para trás da cavidade oral do bebê e possibilitar a amamentação. Essa coordenação ritimada é bem importante para que posteriormente o bebê possa realizar a sucção do alimento na colher.

Os bebês que por diversos motivos (prematuridade extrema, problemas neurológicos, anatômicos, baixo peso ao nascer, problemas cardíacos, etc) tiveram dificuldade nessa primeira etapa, podem apresentar certa resistência ao início da introdução complementar.

Outro ponto a se considerar é o modo como os pais ofertam os alimentos. Dependendo da consistência e do modo como os pais introduzirem os alimentos na boca do bebê, eles podem não conseguir realizar a coordenação entre a sucção e a deglutição. Geralmente o bebê, por não conseguir organizar o alimento em sua boca, acaba engasgando, cuspindo e deglutindo atipicamente. Quando isso acontece com bastante frequência, o bebê pode entender e decidir que isso não é “divertido”, e passar a recusar os alimentos.

Os pais muitas vezes por não compreenderem essa dificuldade acabam usando dos mais diversos artifícios, na tentativa de “distraír” a criança, para que ela coma. Muitas dessas crianças ao se distraírem aceitam as colheradas cheias de papa e acabam por “reflexo” deglutindo o alimento. Não percebem o que estão comendo, não interagem positivamente com os alimentos, não se alimentam sozinhas, não participam ativamente do momento da refeição. Literalmente “enlouquecem” as mães que se sentem culpadas, impotentes e estressadas a cada refeição.

Nesses casos um trabalho bastante pontual que auxilie o bebê nesse aprendizado rítmico entre sucção/deglutição na colher pode beneficiá-lo enormemente. Várias estratégias terapêuticas realizadas por um fonoaudiólogo Especialista em Motricidade Orofacial com experiência em alimentação infantil podem ser positivas. Em paralelo, a orientação aos pais em como realizar a oferta dos alimentos, bem como o apoio emocional a mães dessas crianças se faz necessário e colabora para o sucesso do tratamento.

Outro aspecto bastante importante a ser considerado são as quentões sensório-orais. Os bebês com problemas de alimentação com base sensorial são muito mais complexos. Há muitas vezes uma história geral de irritabilidade, cólicas, sono ruim, ou dificuldade com as rotinas para se auto-regular. Eles geralmente não levam ou levaram muito as mãos e/ou brinquedos a boca. Têm pouco comportamento exploratório oral, esperado para os bebês (fase oral).
Essa falta de estimulação oral com frequência está relacionada a uma defensividade tátil e/ ou oral.
Essa exploração prepara a cavidade oral infantil para a entrada da colher e dos mais variados alimentos.

Quando um bebê apresenta uma desorganização ou defensividade sensorial, parece haver um forte memória sensorial para eventos orais (como por exemplo engasgar ou sentir náusea com determinado alimento). Isso porque quando há defensividade sensório-oral, o sistema nervoso entra em ação com uma reação de luta ou fuga às intensas sensações negativas. A partir da aprendizagem sob esse ponto de vista, de experiência X sobrevivência, o sistema límbico imprime fortemente os códigos dessa experiência a memória do bebê. Memórias negativas fortes freqüentemente contribuem com mudança de comportamento para que determinada situação não ocorra novamente.

É descabido pensar que esses bebês ou crianças apresentam um problema de alimentação comportamental. Na verdade o que ocorre é que esses bebês demonstram o comportamento de recusa aos alimentos porque eles estão fisicamente desconfortáveis e muitas vezes com medo do que poderá acontece com o novo alimento ofertado. 

É comum essas crianças evitarem mastigar. Geralmente a transição da papa pastosa para os grãos e pequenos pedaços torna-se um “desafio” para todos. A criança rejeita, os pais insistem, o pediatra sinaliza que é necessário que ela coma sólidos, a mãe se desespera e muitas vezes se potencializa a recusa aos alimentos. Essas crianças costumam “lamber” ou elegem determinados alimentos que se sentem confortáveis e confiantes para levar a boca (as vezes cospem, em outras vezes deglutem sem mastigar).

Nesses casos a terapia é focada em reduzir os problemas sensoriais que desencadearam a recusa alimentar. Abordagens específicas podem ser utilizadas com cada criança. No entanto, a estratégia geral é influenciar o sistema de processamento sensorial como um todo e não apenas a boca.

O trabalho com a mastigação vai ser secundário à preparação e ao estímulo sensorial. Ajustes nas texturas dos alimentos também são essenciais para facilitar a aceitação oral. Estratégias lúdicas e anti-estresse são também fundamentais para que essas crianças recuperem o desejo de fazer parte das refeições em família.

Certamente os problemas orais apresentados por bebês e crianças não se esgotam nesse texto. Muito há que se estudar e se relacionar com as dificuldades alimentares infantis. Ações preventivas, sejam de informação, ou de detecção precoce, facilitarão e colaborarão para uma maior e melhor aceitação alimentar, tornando o momento da refeição mais prazeroso para toda a família.

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Autora: Fonoaudióloga Dra. Patrícia Junqueira | CRFa. 5567.

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Meu filho não come nada | Veja o post da Fga. Dra. Patrícia Junqueira para o It MãeDia Mundial da Motricidade Orofacial | 17 de fevereiro 2016
All comments (1)
  • Glayce Taciano
    03/03/2016 at 4:27 pm

    Me identifiquei muito com esse texto. Meu filho nasceu com fenda palatina e no momento de introduzir a alimentacao solida ele teve dificuldade em aceitar […] Read MoreMe identifiquei muito com esse texto. Meu filho nasceu com fenda palatina e no momento de introduzir a alimentacao solida ele teve dificuldade em aceitar e eu por inexperiencia acabei forcando pelo fato da pediatra me dizer que isso nao interferia na alimentacao. Com issi, meu filho hoje tem pavor em aceitar novos alimentos, quando moca e janta tem que ser amassada e molhada a comida. Engracado que come pao, biscoito, suco, iogurte e frutas. So tem recusa por comida solida e alimentos novos como, pizza, torta etc mesmo que tenha feito a cirurgia de correcao. Gostaria de uma orientacao!!!! Obrigada. Read Less

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